quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Rio da Intervenção

Em 1994, Itamar Franco mandou o exército combater os traficantes no Rio de Janeiro. 

Abaixo reproduzo algumas das charges que publiquei na época no Diário Popular (SP). Elas nos fazem pensar que a história não se repete na forma de farsa, mas sim de tragédia.








segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Anistia para quem vive do tráfico



As longas guerras civis terminam em genocídio ou num acordo de paz. Não terá chegado a hora dos brasileiros se sentarem à mesa para uma negociação que interrompa a violência entre nós?

Há mais de meio século Bezerra da Silva já cantava “Se vocês estão a fim de prender o ladrão, podem voltar pelo mesmo caminho, o ladrão está escondido lá embaixo, atrás da gravata e do colarinho” (ver aqui seu delicioso samba Vítimas da Sociedade).

As forças armadas brasileiras (inclusive o exército e a marinha) já realizaram diversas operações de guerra contra grupos armados nas favelas e obtiveram resultados midiáticos por algumas semanas. Numa das últimas, o ministro Raul Julguemal chegou a ficar irritado quando uma grande manobra estratégica supervisionada por ele resultou em vazamentos de informações e na captura de meia dúzia de fuzis velhos e alguns quilos de maconha (VER AQUI).

Geralmente, em seguida a estes surtos de esperança na violência oficial contra a violência rebelde dos traficantes, passado o interesse da classe média, as organizações de traficantes retomam seu controle armado com muito mais vigor sobre as mil favelas que existem apenas no Rio de Janeiro.

Estas operações espalhafatosas custam o equivalente a milhares de casas, escolas, salários de professores, atendimentos médicos e investimentos em empregos, recursos que poderiam ser distribuídos para a toda a população atingida de forma muito mais eficaz do que um punhado de balas perdidas no combate às verdadeiras causas da violência.

Manter uma política de enfrentamento militar para o uso de drogas é uma forma de política social equivocada e cruel que tem sido abandonada em muitos países. Portugal, por exemplo, tem sido considerado um exemplo de solução pacífica para a questão das drogas (VER AQUI). Por que não ouvimos o que os portugueses têm a dizer? Nem precisamos de tradutores para entendermos que o maior perigo das drogas é o chumbo do qual são feitas as balas de fuzil.

É preciso acreditar que o mundo se divide em bandidos e mocinhos para achar que as pessoas que vivem do tráfico são mais malvadas do que os jovens de classe média brasileira que usam seus carros como armas depois de ingerirem álcool. Ou que os chefes do tráfico sejam mais perigosos que a quadrilha do Temer e suas malas de dinheiro. Ou que os jovens negros que portam fuzis sejam mais cruéis do que os rapazes brancos norte-americanos que atiram em seus colegas de escola com armas automáticas, semana sim semana não, nos Estados Unidos.

Favelados trabalhadores, classe média e os ricos somos seres humanos semelhantes e a maioria de nós é pacífica, mas estamos reféns daquela minoria perversa que existe em todas as classes sociais, aliás com poder de dano proporcional à sua riqueza: quanto mais rico um perverso, maior o alcance de sua crueldade.

É tempo de pararmos de atirar a torto e com a direita e sentarmos à mesa com os traficantes, discutindo os termos de um acordo de paz, o qual necessariamente tem que incluir a anistia para todas as pessoas que precisam do tráfico para viver. Não estou falando de anistiar os chefões com seus helicópteros de cocaína, esses não. Esses já estão milionários e não precisam do tráfico de drogas para viver e merecem um julgamento criminal justo. 

Falo de anistia para os adolescentes e suas mães pobres, sem qualquer perspectiva de vida, que são obrigados a vender punhados de droga para o consumo da classe média para poderem comprar o que comer e vestir. É hora da anistia geral para todas estas pessoas vítimas da sociedade, como disse o Bezerra da Silva, e que esta anistia seja retroativa a mais de um terço da população carcerária neste momento que está presa por tráfico de drogas.

É claro que descriminalizar as drogas e anistiar as pessoas não resolveria todos os problemas que geram a violência, mas seria o começo da derrubada de um dos nossos muros de Jerusalém. Precisamos construir uma verdadeira e ampla mesa de negociações:um lado o Estado brasileiro ofereceria casa, comida, escola, emprego, aposentadoria e saúde, ou seja, ofereceria o futuro. Do outro, todas as pessoas envolvidas com o tráfico de drogas entregariam suas armas e ofereceriam a paz.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Por que escrever? Vaidade.



Escrevo na esperança de encontrar algum valor para minha vida. Esta intenção parece imediatamente ridícula e destinada ao fracasso quando me situo entre os sete bilhões de indivíduos que vão morrer nos próximos cem anos. No entanto, uma obsessão cotidiana me impele a publicar ideias, memórias e ficções sobre o mundo, acreditando que este esforço deve ser útil de alguma forma.

Utilidade é meu primeiro álibi. Cresci ouvindo meu pai dizer “quem não vive para servir, não serve para viver”. Para ele, médico do interior imbuído do sentimento de que seu trabalho era altruísta e necessário, a máxima continha um ideal nobre o bastante para justificar sua vida inteira dedicada à medicina, o que incluiu milhares de madrugadas fazendo partos. No entanto, do ponto de vista de um senhor feudal, o mesmo pensamento certamente teria um significado distinto e sinistro, mas nunca questionei esta ideia com meu pai enquanto esteve vivo.

Para mim, a necessidade de ser útil para merecer viver tornou-se um anátema eterno pairando sobre cada suposta escolha que tive que fazer ao me engajar ou não em atividades como a medicina, a arte, a ciência e a política. Hoje, ainda que formalmente aposentado, portanto sem o pretexto do salário e da sobrevivência, não consigo me imaginar deixando de fazer algo útil diariamente, às vezes mais de uma vez no mesmo dia: por exemplo, não bastou atender as pessoas no ambulatório do Hospital das Clínicas, acabo fazendo também um cartum, um texto, algo mais para completar a minha utilidade naquela jornada.

Mas o que é algo útil? Algumas ações parecem obviamente úteis, como tentar aliviar o sofrimento de alguém doente. Outras podem exigir mais tempo para revelarem sua utilidade, como realizar uma pesquisa científica para descobrir uma nova informação sobre a natureza. Por fim, há aquelas que presumimos serem úteis, como, por exemplo, fazer um cartum capaz de despertar o senso de humor das pessoas, humanizando um pouco mais o mundo real. Mas todas as ações podem resultar em acontecimentos opostos aos desejados: o medicamento pode matar a pessoa sofrendo, a pesquisa científica pode se tornar uma tecnologia de guerra e o humor pode banalizar o mal.

Portanto, não tenho controle sobre o resultado de minhas ações, se as intenções de hoje corresponderão aos desfechos desejados, pois o amanhã é feito apenas de probabilidades. Resta-me apenas a certeza de que o mundo será diferente, não sei como, mas certamente evoluirá de alguma forma, como vem fazendo desde a canção de Milton Nascimento: nada será como antes, amanhã.

Há os que esperam o amanhã como uma espécie de clone reciclado do hoje e não veem diferença nos tempos passados, pois, segundo eles: - Injustiças? Ah, sempre foi assim. Há os que aguardam o amanhã como uma trajetória inevitável até o apocalipse, o juízo final, o aquecimento global e o fim da civilização, e lamentam ou rezam. Há por fim aqueles que esperam que o amanhã possa ser melhor do que hoje, se nós conseguirmos resolver certos problemas muito complexos. Disse nós? Disse-o bem.

Cada uma destas crenças sobre o futuro leva a uma perspectiva diferente do que seria uma atitude útil no presente. Para aqueles que acham que o mundo sempre foi assim ou que o apocalipse é inevitável, o melhor é aproveitarem os privilégios que eventualmente desfrutam ou tentarem consegui-los pelos meios que dispuserem. No entanto, para quem pensa que o mundo pode ser melhor, surge inevitavelmente a pergunta: então, o que devo fazer hoje para que as coisas caminhem no sentido do melhor que espero para o mundo?

Em outras palavras, a esperança de um futuro melhor traz consigo a ética, ou seja, a responsabilidade sobre meus atos, para todas as condutas no presente. É nesse sentido que compreendo a possível utilidade ou não das minhas ações: estudar este novo tratamento pode afetar a vida das pessoas que atendo? Colaborar nesta cartilha contra o tabagismo poderá diminuir o número de fumantes no futuro? Tratar meus netos com respeito e dedicação amorosa contribuirá para que sejam cidadãos autônomos e pessoas altruístas?

O resumo, até aqui, é que ao escrever minhas memórias (e outras invenções) procuro encontrar sinais de que minhas atitudes no passado foram úteis e éticas porque teriam resultado num mundo melhor na proporção devida do meu poder transformador: 1/7 bilhões de avos da humanidade (não confundir com o enorme poder de bilhões de avós).

No entanto, será que posso assumir como minha a responsabilidade (e consequente utilidade) pelos meus atos se inúmeros acontecimentos aleatórios e involuntários pavimentam o caminho dos meus passos? Como dizer que foi aquela aula de fisiologia que ministrei numa tarde para alunos de graduação que influenciou a carreira acadêmica de um deles, tornando-o um pesquisador importante? Como saber se aqueles desenhos que fiz com minhas filhas ainda criança orientaram sua maneira de criar os próprios filhos? Como avaliar minha responsabilidade na fundação do Partido dos Trabalhadores quando anos depois foi revelada a corrupção realizada por alguns de seus políticos no poder?

Então, parece-me que a busca pela utilidade de meus atos, para que minha vida seja merecida, está destinada a se emaranhar em avaliações subjetivas e reeditadas ao sabor das emoções contemporâneas. Não será possível estabelecer ligações de causa e efeito em assuntos de tamanha complexidade. Restariam apenas minhas intenções de ser útil para merecer viver. E delas, as boas intenções, o inferno está cheio, diria outra vez a voz paterna. Ainda assim, por que continuo a escrever?

Se meu álibi, o da utilidade, perdeu força, cada vez mais me convenço de que não parece se tratar propriamente de uma escolha, pois tenho que me submeter a esta obsessão como alguém que tenta repetidamente segurar com as mãos as paredes de um castelo de areia depois de uma onda inesperada. Esta reconstituição das amuradas semifluidas reedita um novo edifício que, supostamente, é o mesmo de antes da passagem das águas. Uma permanente reedição da minha identidade.

Esta defesa da própria identidade é um atributo natural dos seres vivos, como se nascêssemos intuitivamente sabendo de nossa absoluta originalidade histórica, por conseguinte genética e epigenética, em todo o Universo. Uma vaidade ontológica que advém de nos sabermos únicos. Assim, escrevo por pura e genuína vaidade, sem necessitar de outros argumentos racionais, pois o faço na tentativa de manter existente aquilo que fui-sou-serei enquanto a maré definitiva não vem.

Escrevo para provar a mim mesmo que sou um ser especial que vale seu peso em milhões de grãos de areia dourados. Escrevo pela vaidade de existir, um direito compartilhado com todos os seres humanos e todas as formas de vida, que nada precisam fazer para o merecerem.