terça-feira, 15 de agosto de 2017

CARROS SA



Nas ruas, estradas, montanhas,

Sobre o último pedacinho de vegetação:

Carros. Carros. Carros.

E mais carros.

E mais carros sendo fabricados.

E mais carros sendo anunciados.

E mais carros imobilizados pelos outros carros.

E o que nos vendem as propagandas de carros?



A felicidade num mundo sem carros.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

As últimas palavras

O senhor Matsumoto levantou-se subitamente, interrompendo a discussão sobre política entre seus filhos, que se arrastava durante todo aquele almoço de dia dos pais, apoiou as mãos sobre o espaldar da cadeira e fitou fixamente algo além do bolo de chocolate. Permaneceu assim até que o silêncio se estabeleceu na sala e era longinquamente interrompido apenas pelas vozes dos netos brincando no playground do edifício, para onde suas duas noras haviam levado as crianças.

Prestem atenção um minuto... o senhor Matsumoto falou em voz baixa. As coisas estão muito confusas para mim. O mundo é mais complicado do que eu pensava.... O que era importante na minha juventude, hoje não tem valor. Minha palavra já não vale nada. Então, a partir deste momento, não direi mais nada. Balançou levemente a cabeça à frente, numa tênue simulação do cumprimento tradicional japonês, deu as costas a todos e se dirigiu para o quarto de casal e fechou a porta.

Depois de se entreolharem, a senhora Matsumoto murmurou: Ele anda assim. Tetsuo baixou os olhos: Ainda é o meu casamento? Uma hesitação perpassou os lábios da mãe: Acho que ele já superou, ele até gosta muito da sua... companheira. Mário moveu os dedos fazendo aspas: Só “esqueceu” de convidar os amigos para a festa de casamento. Beto completou com um sorriso no canto da boca: E não tirou os olhos das duas bonequinhas vestidas de noiva sobre o bolo! Tetsuo espalmou as mãos sobre a toalha de linho e olhou de frente os irmãos: A culpa então é só minha? A senhora Matsumoto levantou meio tom na voz: Parem com isso. Não tem nada a ver com vocês. Ele diz que já viveu demais... parou de tomar os remédios.

Todos? Perguntou Mario e sua mãe respondeu afirmativamente com a cabeça. Tetsuo insistiu: Acho que não sou a única que traz problemas para ele. Beto avançou o corpo sobre a mesa:  O que você está querendo dizer? Que ele está aborrecido porque a crise ferrou com a minha empresa e que por isso eu vivo pendurado na aposentadoria dele? A senhora Matsumoto insistiu: Parem. Vocês sabem onde acaba esta conversa. Depois da minha quimioterapia o pai de vocês mudou... afastou-se de mim, como se a culpa da doença fosse minha. Fica falando em morte o tempo todo. Eu lá tentando sobreviver e ele dizendo que a vida não faz sentido, porque a gente se vai duma hora para outra...

A sala de jantar voltou ao silêncio. Mário retomou a conversa: Parou os remédios para o coração também? A senhora Matsumoto assentiu novamente. Acho que é coisa da idade mesmo... a gente fica muito só neste apartamento o tempo todo. Ele não gosta de internet, eu ainda mexo no facebook um pouco, mas ele não se interessa por nada...

Nem filme, nem o futebol que ele gostava, nada? Perguntou Mário. Só uns livros velhos que ele de vez em quando folheia... disse a mãe - e depois joga de lado resmungando que é tudo bobagem, que perdeu o gosto pela leitura. Beto abriu os braços: E aquele tanto de amigos que ele tinha? A senhora Matsumoto pensou um pouco e disse: Alguns morreram, outros estão doentes, mas a vida separa a gente...mesmo os que estão bem de saúde, ninguém mais sai de casa, ninguém procura ninguém.... Você mesmo, Mário, ele sente muito sua falta, desde que se mudou de cidade você aparece aqui somente uma ou duas vezes por ano. Mario se ajeitou na cadeira: É meu trabalho, mãe, o que eu posso fazer? Além disso, a Helena não gosta daqui, não gosta de ficar longe da família dela...

Beto serviu-se da garrafa de café e perguntou a Tetsuo: Você não acha que o pai devia ver um psiquiatra? A irmã também encheu sua xícara e a senhora Matsumoto adiantou-se: Tentei sugerir isso... ele disse que nenhum remédio vai resolver a droga da vida, nada vai parar o seu envelhecimento. Tetsuo completou: O problema da depressão é que a pessoa não tem nem mesmo energia suficiente para desejar melhorar... Mário interrompeu a irmã: Mas um psiquiatra não poderia avaliar o risco dele... se... se matar? Os quatro se olharam por um instante. Beto arregalou os olhos: Mãe, onde está aquela espada de samurai que o pai pendurava na sala? Tetsuo levantou-se abruptamente jogando a cadeira no chão e correu em direção ao quarto do casal seguida pelos irmãos e pela mãe. Bateram várias vezes na porta trancada: Pai! Pai! Abre a porta!

Depois de alguns instantes, o senhor Matsumoto girou a chave e abriu a porta. O que o senhor está fazendo? Perguntaram Mário e Beto. O velho olhou para cada um dos membros da sua família e moveu os dedos indicador e polegar sobre os lábios como se fosse o fechamento de um zíper.



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Meu candidato para as próximas eleições

Não, querida Luíza, não perdi a esperança, pois envelhecer é para os fortes, como lembrou a amiga Ana Figueiredo. Apesar de tudo o que nos aconteceu nos últimos anos, depois do doloroso aprendizado sobre o apodrecimento de nossa democracia, encontrei o único candidato que pode mudar nosso destino, porque ele possui algumas qualidades:

Meu candidato recusará qualquer forma de populismo, seja de direita ou de esquerda, porque populismo é sempre um atraso, e não aceitará se tornar o salvador da pátria, nem o pai dos pobres, nem o guia do povo.

Meu candidato promoverá uma reforma política livrando o Congresso Nacional dos políticos corruptos e encerrará a troca de ideias por favores, resultando no fim dos votos comprados, das propinas milionárias e do desperdício do dinheiro público.

Meu candidato resistirá ao domínio dos bancos e das grandes corporações, impondo freios ao capitalismo e desenvolvendo mudanças estruturais que nos levarão no longo prazo para uma sociedade mais justa e igualitária.

Meu candidato defenderá a inclusão completa das minorias desfavorecidas e não será comprado pelas minorias financeiras, pois haverá de agir sempre na direção do bem comum e da sociedade como um todo.

Meu candidato incentivará a solidariedade e não a competitividade.

Ele apoiará a ciência e a tecnologia a serviço da felicidade e não do lucro.

Ele devolverá a cidadania às pessoas reduzidas à condição de consumidores.

Para ele, não haverá discriminação de gênero, inclusive porque ele é, ao mesmo tempo, candidato e candidata.

Você já deve ter desconfiado que meu candidato para as próximas eleições é o eleitor.

Somente ele pode nos salvar.

Sim, confesso a você que ele possui algumas características que ainda me preocupam, como acreditar em bíblias, em macumbas e no diabo, ser machista e violento com as mulheres, levar o futebol mais a sério do que o meio ambiente, gostar mais do próprio cachorro do que das crianças dos outros, beber e dirigir se não houver fiscalização e sonegar impostos sempre que possível.

Mas são detalhes, coisas pequenas que podem ser corrigidas até as próximas eleições.

Como vê, sou pura vesperança.


sábado, 5 de agosto de 2017

Um macho alfa se despede

O rapaz de bermuda laranja e cabelos grandes e crespos gritou algo que não compreendi com os dois homens que seguiam à sua frente e em seguida saltou sobre um deles, aparentemente tentando mordê-lo no ombro quando eu estava a uns dez metros do grupo. O agredido desvencilhou-se facilmente do negro numa contorção habilidosa e com seus braços musculosos o imobilizou numa chave de pescoço, iniciando uma série de socos na cabeça do rapaz, enquanto ele gritava e o outro homem se aproximava.

A distância entre eles e eu se encurtava, pois continuei caminhando, e em alguma parte da mim começava um tipo de reação impensada que sempre surgiu em situações semelhantes, quando tomei as dores de alguém sendo covardemente agredido e me intrometi na questão, muitas vezes desafiando de forma imprudente a correlação de forças desfavorável às minhas possibilidades de sair ileso daquela situação. O jovem negro estava agora no chão e o segundo homem o chutava enquanto o primeiro continuava a sequência de murros e gritos.

Quando eu estava a uns dois passos deles, levantei os braços e comecei a dizer: Calma! Calma! O homem que socava largou o rapaz de bermuda laranja, o outro parou de o chutar e se afastou um pouco como se fosse continuar sua caminhada, mas permaneceu de cabeça baixa de tal forma que eu não via sua face coberta pelo boné de frente longa. Por milissegundos tive a impressão de que minha chegada havia interrompido a agressão, que ainda me parecia ter sido provocada pelo rapaz negro de bermuda laranja, que agora estava com os cabelos crespos e grandes cobertos de terra, os olhos esbugalhados, a face esquerda e os joelhos com escoriações e sangrando um pouco.

Então o rapaz ferido gritou com o homem que o socava havia poucos instantes: Devolve meu celular! E olhando para mim, apontou o homem que o espancara: Ele roubou meu celular! O outro respondeu: Você está drogado, cara, ficou louco? Que celular? É este aqui o seu celular? – ele exibiu um celular preto em sua mão direita. Você escondeu o meu celular! O homem baixou as calças e a cueca até aparecer parte do seu pênis: Onde está seu celular? Onde tem celular? Pode olhar, vê aqui se tem celular, seu maconhado! E voltando-se para mim: Sou trabalhador, sou bombeiro, olha meu crachá! – ele mostrou-me num relance algo que não consegui ver direito. O rapaz surrado disse: Você escondeu meu celular com ele! – e apontou para o homem de boné, o qual passou por mim em direção contrária àquela em que todos caminhávamos antes do início de tudo e chamou o outro: Vamos embora daqui!

No instante seguinte os dois se afastaram rapidamente e o rapaz em desespero gritou para mim: Me ajuda! Eles roubaram meu celular! Aparvalhado, eu começava a entender que o rapaz negro fora de fato assaltado. Revertia-se meu julgamento inicial desencadeado pelo primeiro gesto de agressão que presenciara e pela aparência daquelas pessoas: o que atacara primeiro era negro e os dois outros eram brancos, o jovem negro vestia roupas e adereços afro e os dois brancos, um pouco mais velhos, usavam roupas comuns, o álibi de baixar as calças simulando sinceridade e a acusação de drogado ao rapaz acrescentaram uma cortina de fumaça ao conjunto de informações que eu dispunha, pois alucinações e paranoias podem fazer parte dos efeitos das drogas.

Envergonhado pelo meu preconceito, vi desvanecer todo o meu impulso de paladino da justiça, de defensor dos fracos e oprimidos, do arrogante temerário de tantos anos que intimamente se vangloriava de ter um coração valente e justo. Esvaziou-se subitamente minha capacidade de enfrentar fisicamente qualquer pessoa e percebi minha fragilidade, minha insegurança e minha idade.

Abri meus braços em desalento e disse: Como posso te ajudar? Eu sou um velho! Depois de um breve olhar de desprezo pela minha impotência, o rapaz saiu correndo atrás dos dois homens gritando: Socorro! Socorro!

Permaneci um tempo imobilizado vendo sua voz se distanciar e o silencio retornar à pista de caminhadas no meio do parque. Retomei lentamente meu caminho com a terrível descoberta de que Trump, Temer e o guarda da esquina são mais fortes do que eu.