quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Adversário

Hoje, a cidade de Belo Horizonte completa 120 anos.

Cheguei aqui há 53 anos e a coisa que mais me impressionou foi a quantidade de pessoas morando na rua, de crianças pedindo esmola, de favelas e barracos em vários lugares, situações quase inexistentes na cidade de onde eu vinha, Lambari, no Sul de Minas.

Nestes sessenta anos, muitas coisas mudaram por aqui, mas os sem teto continuam, os barracos surgem por toda parte e ontem fotografei este aglomerado de entulhos no Viaduto Leste da Lagoinha e ele faz um duro contraponto ao belo vídeo (BH120) que está circulando nas redes sociais.

Imagino a miséria que significa viver num lugar assim: o barulho constante, a poeira do asfalto, a falta de água e higiene básica, a carência absoluta do mínimo para se ter dignidade.

Enquanto houver pessoas 
vivendo assimem meio a tantas adversidades, não consigo comemorar com alegria o aniversário da cidade .

Além disso, a presença da bandeira nacional hasteada na frente (ou fundos?) do simulacro de habitação me faz pensar.

Seria o seu morador um ufanista a despeito de tudo? Teria ele motivos para ainda acreditar nessa pátria (tão evocada pelos amantes da ditadura), que o trata pior do que tratamos os animais?


A bandeira seria um sinal de que ainda há alguma esperança em seu coração de que um dia seremos todos filhos de uma mátria e solidários construiremos uma grande frátria, onde haverá moradia, trabalho, educação e saúde para todos?

Ou ele quis fazer uma ironia conosco?



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A quem interessa avacalhar com a Universidade Pública?


Conheço pessoalmente os professores e funcionários da UFMG que sofreram a injustiça de serem levados à Polícia Federal de forma coercitiva para deporem numa investigação sobre o Memorial da Anistia.

Conheço, em especial, o reitor atual, professor Jaime Ramirez, que foi orientador de uma de minhas filhas.

Tenho absoluta certeza de que estas pessoas não cometeram qualquer crime contra o patrimônio público e que a maneira como esta operação foi realizada se destina a desacreditar midiaticamente uma Universidade que tem mantido a esperança brasileira no ensino público de qualidade.

Como professor aposentado e trabalhando como voluntário no Hospital das Clínicas da UFMG, sinto-me pessoalmente atingido por estas ações arbitrárias e fora da lei.

Reproduzo abaixo o texto do nosso sindicato.

“Foi com grande indignação que a diretoria do Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Ouro Branco – APUBH recebeu logo pela manhã, a notícia de que o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, professor Jaime Arturo Ramirez, a vice-reitora, professora Sandra Regina Goulart Almeida e reitores e vice-reitoras de gestões passadas da Instituição foram conduzidos coercitivamente para prestar depoimento na sede da Polícia Federal em Minas Gerais.

A ação faz parte de uma operação intitulada pela PF de “Esperança Equilibrista” e que apura irregularidades e suposto desvio de recursos públicos nas obras de construção do Memorial da Anistia Política do Brasil.

Causa estranhamento a forma como a operação foi conduzida pela Polícia Federal que, antes de notificar a UFMG, nos parece informou a imprensa transformando a ação em um espetáculo midiático, a exemplo do que ocorreu em Santa Catarina.

Tal atitude estabelece um processo de condenação pública e antecipada daqueles que foram chamados a prestar esclarecimentos, sem qualquer acusação formal. Cria um circo em que coloca em xeque a credibilidade de uma das maiores e melhores instituições de ensino público do país e da América Latina, responsável pelo desenvolvimento de pesquisa de ponta e que possui em seu corpo docente professores e pesquisadores reconhecidos nacional e internacionalmente.

A APUBH entende que os fatos devem ser investigados, para que a verdade surja e a justiça seja feita. Porém, condena o uso da “força bruta”, na forma dos mandados de condução coercitiva, pois existem modos mais “educados” para se “convidar” uma testemunha pública, de endereço conhecido e de conduta ilibada para prestar o seu depoimento. O uso destes mandados nos remete à conduta da Polícia no contexto do Estado de Exceção: será que estamos voltando à ditadura? Nos últimos meses, vivenciamos uma sequência de agressões à universidade pública, por meio de cortes orçamentários, suspensão de investimentos, culminando na ação truculenta da PF na manhã de hoje.

Neste difícil momento, por qual passa a UFMG, mais do que cores partidárias, disputas internas por poder na instituição ou em suas unidades, nós temos que nos unir em defesa dessa Universidade que é referência na produção do conhecimento e da luta pelo ensino público, gratuito e de qualidade.”

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Aquarela





Para o amigo Romeu



Condenado nascituro à pena capital,

(Por ser inevitável replicador de genes,

Egoístas ou não, - como saber)

Ignoro quando serei chamado ao patíbulo.



Obrigado a esperar, cultivo flores invertidas,

(Ciclâmen brancos e girassóis noturnos,

E envio mensagens altruístas de Arecipo para planetas distantes)

Mas, no mais, pouco difiro de quem vai livre pelas ruas:

Apenas estas grades,

Transitadas em julgado pelo magistrado das últimas instâncias.



Não me desespero, (apesar dos tristes pensares)

Porque meus três últimos desejos,

Mudar de espécie, não morrer e viver em outro mundo,

Já estão atendidos:

Sou a água viva numa aquarela que estou ainda a pintar.






domingo, 3 de dezembro de 2017

Alguém conhece o SIMPLEXO?

Há algumas semanas uma pessoa enviou-me um e-mail dizendo que realizara uma encadernação de meu livro “Retrato Falado” publicado em 1978 (capa ao lado), que ele encontrara na internet, e que gostaria de me presentear com um exemplar. 

Concordei, manifestei-lhe meu agradecimento e aguardei. Nesta semana, recebi de minha secretária no consultório o tal exemplar, uma linda encadernação com toques de capricho e adicionais à velha edição em papel jornal e capa mole.

Imediatamente pensei em agradecer a gentileza, mas não encontrei qualquer bilhete, telefone ou endereço de onde fora encadernado e não mais consegui localizar o e-mail recebido. Há apenas um logotipo e a palavra SIMPLEXO nas primeiras páginas (abaixo), o que me pareceu uma pista para procurar na internet por alguma encadernadora, editora ou algo 
equivalente.

Não descobri meu gentil encadernador, mas aprendi coisas interessantes, por exemplo, a definição do termo SIMPLEXO oferecida pela banda de rock do mesmo nome, de Belo Horizonte. Em sua página eles dizem que: “Pode-se interpretar o nome Simplexo como sendo a junção das palavras simples+complexo, com todo o sentido paradoxal que isso sugere. Mas Simplexo é também um conceito matemático, presente na geometria. É a forma mais simples de cada espaço dimensional. Os matemáticos imaginam a existência teórica de espaços de quatro, cinco, dez, infinitas dimensões. Na divisa entre nosso mundo visível (e, portanto, acessível), e o mundo imaginado, temos o espaço de quatro dimensões, formado por poliedros que se juntam e se atravessam simultaneamente, e que não podemos ver em sua totalidade, já que vemos apenas três dimensões. Assim, a figura fundamental desse espaço imaginário de quatro dimensões é o Simplexo, que não tem outro nome de batismo. O Simplexo é o símbolo da capacidade da mente humana de criar universos absurdamente complexos. O Simplexo é o símbolo das dimensões ocultas." 

Uau!

Mas, se a pessoa que me enviou o livro encadernado estiver lendo este post, ou alguém souber de quem se trata, por favor, diga-me para que eu possa agradecer e encomendar a compra de novos exemplares para eu dar de presente para os amigos.

Aliás, por falar no “Retrato Falado”, reli a história publicada há 40 anos e fico feliz de tê-la criado, pois seu conteúdo ainda repercute em meu coração. 


Retrato Falado” é uma ficção sobre um estudante no dia da declaração do Ato Institucional numa república denominada Rosário. A primeira edição de cinco mil exemplares foi publicada pela Editora Veja, uma instituição de oposição ao regime militar e liderada pelo eminente Professor Edgar de Godoi da Mata Machado, deputado cassado e que teve seu filho José Carlos da Mata Machado preso, torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira iniciada em 1964.

Professor Edgar era uma pessoa digna e que, tenho certeza, jamais aprovaria a nostalgia de algumas pessoas pelo retorno da ditadura militar.
Uma segunda edição do Retrato Falado foi publicada em 2003 pela Editora Nona Arte (do Rio de Janeiro) e vendida online. Nos primeiros dois meses, para minha surpresa, houve milhares de downloads da história completa. A editora não está mais no ar, infelizmente.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Broda






Você cansou de aguentar a decepção,
O desencanto e a revolta contra aqueles
Que nos enganam (há tempos)
E libertou seu ódio das amarras da razão.


Você está preferindo postar e apostar
Em medidas duras e autoritárias
(violentas, se preciso)
Para corrigir a diversidade das pessoas e as incertezas do mundo.

Você espera que o novo senhor
Que chegar às rédeas pela força das artimanhas e mentiras
Irá, depois, abrir mão (gentilmente)
Dos meios enganosos que o forjaram para governar.

Você não imagina que esse futuro
Também poderá gerar desilusão e revolta
(por causa dos enganos de sempre),
Mas será tarde: ao ovo, a serpente não haverá de retornar.

Alguém, mais jovem, pode não ter presenciado
A dor, o medo, a insegurança (e o silêncio das ruas)
Quando todo temíamos ser o vizinho um delator
Do crime que não havíamos cometido.

Mas você, que viu nossos pais de joelhos,
Em desespero pelo filho na prisão
(nas mãos dos salvadores da Pátria),
Não ajude a história a se repetir: o final pode ser muito pior.