segunda-feira, 17 de abril de 2017

ODE a BRECHT



Primeiro compraram meu voto

Mas não me importei com isso

Eu ganhei uma camiseta




Em seguida compraram vereadores e prefeitos

Mas não me importei com isso

Eu não pago imposto




Depois compraram deputados e ministros

Mas não me importei com isso

Porque fizeram um estádio na minha cidade


Depois compraram senadores, juízes e presidentes

Mas não me importei com isso

Porque político é tudo igual



Agora estão levando embora o país

Mas já é tarde.

Como eu não me importei antes

Ninguém se importa agora.




Paródia do poema de Bertolt Brecht

INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.



Mal acabei de postar este blog e recebi um e-mail do amigo Jair Raso, médico neurocirurgião, autor de peças teatrais e escritor, um link para seu blog com outra Ode a Brecht.
Confiram AQUI


Logo em seguida, o amigo Manoel Guimarães alertou-me que talvez o poema não seja da autoria do Brecht e fui conferir, então encontrei uma reportagem de duas jornalistas de Brasília, Andréia Sadi e Priscilla Borges (ver AQUI):

Depois de criticarem o erro de Ciro Gomes, elas dizem que o poema que ele pretendia citar seria de autoria do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa e diz:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Há outros poemas que lembram o conteúdo do texto escrito por Eduardo Alves da Costa. Um é de autoria de um pastor luterano, alemão, Martin Niemöller. O outro, de Bertold Brecht... A confusão entre os autores, segundo entrevista dada por Eduardo Alves da Costa à Folha de S. Paulo em 2003, é comum. O escritor e terapeuta Roberto Freire teria publicado o poema em livro, na década de 1970, atribuindo a autoria do poema ao russo, colocando Eduardo como tradutor do texto.”

sábado, 15 de abril de 2017

Minha ignorância cultivada

Proponho aos meus amigos e leitores o desafio de responder ao teste abaixo sobre a pergunta “Quem foi Alexander von Humboldt? ”, sem consultar o Google, é claro.

Marque apenas uma das alternativas abaixo:

a) Um naturalista alemão descobridor da corrente de águas frias no Oceano Pacífico;

b) Amigo e inspirador de Simão Bolívar em sua luta pela independência das colônias espanholas na América Latina;

c) Um cientista liberal e inimigo do Imperador Napoleão Bonaparte, que o considerava um espião prussiano;

d) Defensor da república e informante de Thomas Jefferson sobre segredos econômicos e militares da colônia espanhola no México;

e) Autor de um livro de viagens que inspirou Charles Darwin a viajar no navio Beagle ao redor do mundo, de onde Darwin trouxe as informações necessárias para desenvolver a teoria da seleção natural;

f) Amigo íntimo e inspirador de Goethe na sua criação do personagem Fausto no livro do mesmo nome;

g) Criador do conceito holístico de que todas as formas de vida estão interligadas, o que deu origem ao pensamento ecológico contemporâneo;

h) Um crítico permanente da escravidão durante seus 89 anos de vida, apesar de amigo de presidentes norte-americanos;

i) Um cientista alemão apaixonado platonicamente por diversos homens ao longo de sua vida e que nunca se casou ou teve filhos;

j) O descobridor das faixas de temperaturas e climas em torno da Terra, chamadas isotermas;

k) A primeira pessoa a usar um diagrama para explicar uma ideia científica ao desenhar um vulcão nos Andes e demonstrar porque cada planta nascia numa determinada altitude;

l) O primeiro cientista a dizer que a África e as Américas já haviam sido um continente único e que se separaram com o tempo (tectônica de placas);

m) Um explorador das florestas tropicais onde entrou em contato com os ianomâmis em torno de 1800;

n) Um especialista em geologia que descobriu diamantes na Rússia;

o) Inspirador de Júlio Verne e também personagem de um livro de Gabriel Garcia Márquez;

p) O primeiro cientista a escalar e medir a altitude, pressão e temperatura do vulcão ativo Chimborazo na Cordilheira dos Andes;

q) O primeiro cientista a mostrar que o desmatamento degrada a Terra e afeta o clima de forma perigosa;

r) Um cientista que propunha a união da poesia com a ciência para a melhor compreensão do mundo;

s) Autor de “Kosmos”, uma visão integrada de tudo o que se sabia cientificamente em torno de 1850 e o primeiro a dizer que meteoritos e cometas estavam relacionados;

t) Todas as alternativas acima.



Suspeito que você deverá achar impossível a última alternativa, mas vou dizer de uma vez que sim, ela é a resposta certa: Humboldt foi tudo isso acima e muito mais.

Sua perplexidade talvez seja menor do que a minha se, por acaso, teve uma formação científica melhor do que eu, que tenha permitido você estudar mais sobre a história da ciência, na qual Alexander von Humboldt deve aparecer com toda a sua importância para o pensamento científico mundial.

Para mim, conhecer a vida de Alexander von Humboldt foi uma surpresa atrás da outra na leitura de um livro que comprei por acaso (na verdade achei o exemplar lindo) numa livraria do meu bairro Itapoã, em Belo Horizonte, em pleno 2017: “A invenção da natureza – A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt”, escrito por Andrea Wulf e que foi considerado o melhor livro de não-ficção de 2015, segundo o The New York Times, o The Guardian e a revista Time.




O livro está escrito num estilo muuuuito ruim (problema original ou de tradução?), repetitivo, cheio de adjetivos e lugares-comuns (“estrondoso sucesso”, cada passo pesava como chumbo”, etc.) e com capítulos desnecessariamente longos sobre cientistas norte-americanos que foram influenciados por Humboldt (destinados a vender o livro nos USA?).

No entanto, à medida que fui lendo, comecei a pensar como é possível que um cara como eu, com quase setenta anos, supostamente um cientista, embora formado inicialmente em medicina, não soubesse nada mais a respeito de Humboldt, além de que existe uma corrente marítima com seu nome?

Quando o livro me mostrou sua expedição nas florestas da Venezuela em torno de 1800 percebi que Humboldt havia penetrado na região amazônica até as regiões visitadas também pelo antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon na década de 1970 e relatadas em seu livro de memórias (ver AQUIl ) que li e reli durante semanas. Imediatamente corri até o livro do Chagnon para ver se ele citava Humboldt em algum momento: nada.

Comecei então a rever em minha estante alguns livros de não-ficção, que pudessem de alguma forma ter a ver com Humboldt, e encontrei apenas quatro citações. A primeira, de Euclides da Cunha, em seu inesquecível “Os sertões”, quando comenta as explicações de Humboldt para a formação dos desertos e terras áridas como o sertão brasileiro. A segunda, de Carl Sagan, em seu famoso livro “Cosmos”, uma nota de rodapé dizendo que Humboldt havia estabelecido as relações entre meteoritos e cometas. A terceira, de Elizabeth Kolbert em seu dramático livro “A sexta extinção: uma história não natural”, no qual ela afirma que Humboldt foi o primeiro a perceber que “o desenvolvimento orgânico e a abundância de vitalidade aumentam dos polos em direção ao equador”, mas que duzentos anos depois de sua descoberta as razões para isto ainda não são bem conhecidas. A última em Sean B. Carrol, em seu livro “Infinitas formas de grande beleza”, no qual ele cita a imensa admiração transformadora de Darwin por Humboldt, que motivaria sua viagem no Beagle e todo o modo de pensar de Darwin a partir de então.

Descobri que Alexander von Humboldt não consta de muitas das minhas leituras de não-ficção, como Darci Ribeiro, Richard Dawkins, Jared Diamond, Leonard Milodinow, Domenico di Masi, Yuval Noah Harari, John Gray, e tantos outros, assim como seu nome era desconhecido para a maioria de meus amigos e parentes com quem falei recentemente sobre este assunto.

Ao terminar de ler o livro de Andrea Wulf é inevitável perguntar: como alguém que foi considerado o cientista europeu mais importante entre 1800 e 1850 possa estar tão esquecido atualmente?

A própria autora oferece duas explicações: a subdivisão da ciência em inúmeras áreas com aprofundamento crescente do seu conteúdo teria tornado impossíveis ideias holísticas como aquelas defendidas por Humboldt; e os cientistas alemães teriam sido colocados de lado pelos colegas ingleses e norte-americanos depois das duas grandes guerras contra os alemães.

Acrescento duas outras possibilidades. A primeira, prosaica, é que a própria passagem do tempo é implacável com todas as memórias, por mais que elas tenham sido importantes para nós: tente, por exemplo, se lembrar do nome de suas bisavós. E olha que, sem elas, nós não estaríamos aqui. À medida que muitas das descobertas científicas de Humboldt se mostravam corretas e foram aprofundadas pelos seus discípulos, provavelmente estes “deixaram de se lembrar” delas: Darwin, por exemplo, cita o nome de Humboldt, seu grande ídolo 30 anos antes, apenas de passagem, e apenas duas vezes em seu “A origem das espécies”!

A segunda, mais especulativa, é que as ideias de Humboldt são holísticas (contrárias à fragmentação da produção de conhecimento em que vivemos), humanistas (pela liberdade, democracia e igualdade social), antiescravagistas (e contrárias a todas as formas de exploração dos seres humanos), defensoras da ecologia (contra qualquer tipo de alteração na natureza para fins comerciais, o desmatamento e as monoculturas), e contra o colonialismo (em todas as suas formas, inclusive contra a dominação cultural e científica de um povo sobre outro), contra a ideia de que os recursos humanos são infinitos (mito do progresso eterno cultivado pelo capitalismo), enfim, Humboldt era contra a maior parte das ideias dominantes no sistema social em que vivemos.

Vivendo no Brasil desde 1949, minha mente foi devidamente cultivada ao longo de todos estes anos para esquecer Humboldt, porque pensar como Humboldt é pensar que o sistema econômico e o meio ambiente estão em guerra.

Hoje, Humboldt estaria participando do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática criticando o Donald Trump, contra a ditadura chinesa, contra o apoio de Putin ao governo sírio assassino, contra a Odebrecht e suas metástases no PT, contra Temer e a política do Dória.

Viva Humboldt.




Comentário do Luciano Sales Prado

Caro Lor, como você sabe de minha história em terras germânicas, também entende que não posso deixar de comentar esse seu texto. Alexander von Humboldt é uma espécie de "patrono" de toda a história recente da ciência na Alemanha, e do modus operandi dos pesquisadores alemães, do próprio sistema educacional. Tanto a escola quanto o sistema universitário alemães são fortemente influenciados por esse libertário. Suas ideias passam por um estímulo irrefreado e destemido da criatividade, da liberdade, da curiosidade. Alexander von Humboldt é considerado na Alemanha um dos primeiros pensadores a imaginar uma espécie de globalização do conhecimento e do pensamento científico, pelo menos na história "recente" da ciência. Muito do meu jeito de lidar com certas questões e temas acadêmicos, e principalmente de lidar com os alunos e o ensino, são influência do que vi, vivi, aprendi e debati nos anos naquele país, tão formado pelas ideias de Humboldt. Mas, se aqui ele pode não ser tão lembrado, lá ele deu nome a uma das maiores fundações de fomento à pesquisa, a Fundação Humboldt (Alexander von Humboldt Stiftung) e a uma das maiores universidades do país, a Humboldt-Universität Berlin, onde o Simon deve começar a estudar a partir de setembro (orgulho de pai). Para quem curte o assunto e quer saber mais de uma forma deliciosa, em 2005 foi publicado na Alemanha um romance chamado Die Vermessung der Welt (A Medição do Mundo), uma espécie de biografia romanceada de Humboldt e Gauss (ele mesmo, o daquela linda curva...). O livro existe em inglês, e se chama Measuring the World (Daniel Kehlmann). Vale a pena.